Os 200 melhores álbuns de Rock Progressivo - Parte 4
Ou, pelo menos, essa é a opinião da revista inglesa Uncut, que fez uma edição especial com esse ranking.
Essa é a continuação (a terceira parte está aqui) dessa série e vamos ver mais dez álbuns, dessa vez do 170 ao 161.
Siga comigo nessa jornada de aprendizado musical!
170 - A Salty Dog - Procol Harum (1969)

Você pode não saber (eu não sabia), mas você já ouviu essa banda. A música mais famosa deles, "A Whiter Shade of Pale" é um clássico da música lenta de festinha (ou, pelo menos, era nos anos 80). Isso tocava a beça no "Good Times 98". Essa música é do primeiro disco deles e é uma das que os musicólogos reputam ter a honra ser a primeira gravação com elementos claros do que entendemos por Rock Progressivo hoje.
Já nesse terceiro álbum, a seleção de músicas é bem variada, O repertório vai desde o blues tradicional de "Juicy John Pink", passando por 'Crucifiction Lane' até o rock direto de 'The Devil Came From Kansas' e culminando na grandiosa faixa-título. Tudo isso faz desse disco uma boa adição a essa lista, apesar da capa horrenda.
169 - Hero and Heroine - Strawbs (1974)

O Strawbs é uma banda inglesa que iniciou em 1964 como uma banda de bluegrass que foi aos poucos migrando para o folk e o rock progressivo. Isso aconteceu principalmente porque sua formação foi muito alterada ao longo de tempo. Embora eles tenham sido longevos, não chegaram ao topo, a despeito de muita gente famosa ter passado por lá (como o Rick Wakeman).
Esse disco de 1974 é o primeiro depois de uma ruptura, e trouxe a banda em uma nova formação e um claro movimento em direção ao rock progressivo mais sinfônico. Curiosamente, tanto esse disco como o seguinte (que é o próximo da lista), fizeram mais sucesso nos Estados Unidos do que no Reino Unido.
Embora não chegue a ser um álbum conceitual, o disco tem uma certa consistência temática (muito voltado a conflitos psicológicos internos), e é discutido se a heroína do título não é uma alusão direta a droga. A primeira música "Autumn" é tida como a melhor. Eu gostei bastante de "Just Love".
Eu gostei do álbum como um todo, é uma banda que eu não conhecia e me pareceu interessante.
168 - Ghosts - Strawbs (1975)

É fácil de entender porque a Uncut colocou dois álbuns seguidos da mesma banda na lista. Ghosts é praticamente a sequencia de Hero and Heroine, sendo lançado no ano seguinte com a mesma formação. Enquanto o primeiro trazia discussões mais introspectivas como depressão e conflitos internos, esse fala de assuntos sobrenaturais, o que permite uma variação de climas maior.
Eles me lembram bastante a fase Peter Gabriel do Gênesis, não com tanta maestria talvez, mas é bem agradável, as letras são cantadas no mesmo estilo teatral. E em termos de qualidade, o disco é impecável, mesmo com muita acontecendo é fácil ouvir tudo, sem abafamento ou mistura.
Os dois discos poderiam estar em ordem invertida ou empatados, esse talvez seja um pouco mais progressivo do que o anterior. Eu concordo com a escolha.
167 - Spectral Mornings - Steve Hackett (1979)

Continuando a órbita em torno do Gênesis, temos esse disco do Steve Hackett, guitarrista da banda de 1971 a 1977 e que terminou saindo porque suas músicas não conseguiam passar no corte da escolha do que seria gravado pela banda.
Ouvindo o disco, fica difícil para mim não dar razão aos colegas do Genesis. Em termos instrumentais existem bons momentos, mas o material é bastante irregular ao meu ver. As letras são bem fracas e as instrumentais variam bastante (música com barulho de relógios depois de Time, do Pink Floyd, é sério isso?).
Tem muita gente que gosta desse disco (tanto que está na lista) mas, para o meu gosto, seus defeitos são maiores do que seus méritos. Acaba sendo uma coleção dos clichês que tomaram conta do rock progressivo no fim dos anos 70.
166 - Trespass - Genesis (1970)

Trinta e quatro discos depois e finalmente um álbum que já tinha ouvido antes. Trespass é o segundo álbum do Genesis, mas o primeiro onde o aparece o estilo que tornaria esta uma das principais bandas do gênero.
O nome do disco é bem significativo, pois um limite foi ultrapassado e vencido. De uma banda sem uma identidade clara, o Genesis surge aqui oferecendo a primeira versão do que seria no futuro: composições com letras inteligentes, interpretação teatral e uma estrutura musical complexa, cheia de camadas e mudanças de ritmo, que ajudam a contar as histórias dos personagens encarnados por Gabriel enquanto ele os defendia vocalmente.
The Knife é o principal hit do disco, mas White Mountain e Stagnation são excelentes também.
Esse disco talvez estivesse um pouco à frente do seu tempo, pois não vendeu bem. De qualquer forma, eu acho que ele apareceu cedo nessa lista. Devia estar entre os 100.
165 - Songs from the Wood - Jethro Tull (1977)

Ian Anderson é um grande gozador. Nesse disco, teoricamente ele se diz cansado da cidade e se volta ao folclore inglês. As músicas da floresta "vão fazer você se sentir melhor", promete ele, com sua "prosa da cozinha e rimas dos esgotos".
Olhe a capa. Você confia nesse sujeito? Nunca leve Ian Anderson ao pé da letra. Isso é uma crítica e não uma ode.
A música ajuda no truque, o disco tem um "sabor acústico", com bases de violão e alaúde, mas a cozinha e o teclado são modernos. Não é um olhar ingênuo sobre o folclore e sim um comentário moderno sobre o mesmo, até uma ironia sobre a ideia hippie de levar elfos e gnomos muito a sério.
O Tull sempre teve uma pegada folk e a utiliza com propriedade aqui. O uso de um madrigal na música título é interessante e o resto do disco segue bem os trejeitos da banda.
164 - Astounding Sounds, Amazing Music - Hawkwind (1976)

Com um nome imponente e uma capa que parece ter saído dos livros do Perry Rhodan, o Hawkwind traz um som muito diferente do que havia apresentado anteriormente (quando o Lemmy, do Motorhead, ainda era o vocalista e baixista;o som era muito mais pesado, mas o Lemmy já não era fácil. Acabou expulso por viver drogado).
O tema de ficção científica está nas letras e no espírito das músicas. De alguma forma o som passa uma vibe meio futurista. Não é o Space Rock do Pink Floyd, é mais uma coisa meio fantasia, é bem teatral.
Como destaque, cito Steppenwolf, baseada no livro de mesmo nome, e Kerb Crawler, que lembra até a discoteca que aparecia em Zé Colmeia e os trapalhões espaciais.
Se eu tiver que dar um veredicto, eu diria que é bom, mas que envelheceu mal. É difícil levar a sério isso ouvindo 50 anos depois.
163 - Things may come, Things may go, but the Art School Dance goes on forever - Pete Brown and & Piblokto (1970)

Pete Brown já era conhecido por ter composto boa parte das músicas do Cream (lendária banda formada por Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker), quando foi expulso de sua própria banda, os Battered Ornaments. Ele não se fez de rogado, formou uma nova banda, o Piblokto e lançou esses disco, de nome quilométrico que remete as pretensões artísticas da banda.
Muito do progressivo está ligado ao desejo dos jovens ingleses, que tinham formação musical erudita (ou simplesmente formação superior) de tornar o rock uma coisa mais "séria". Como estamos vendo por toda essa lista, essa é uma tendência que aparece em vários momentos, com mais ou menos força.
Apesar do tempo ter tornado esse álbum algo meio cult, ele é bem acessível. As músicas demonstram bem a sua origem no blues, os arranjos são variados e bem feitos. Infelizmente, na disputa feroz da época com bandas como Deep Purple, Pink Floyd e Black Sabbath, o Piblokto acabou ficando eclipsado e não durou muito. Mas é um bom disco, merece sua audição.
162 - Islands - King Crimson (1971)

Esse disco é de uma fase de transição do King Crimson. A capa, que tem a imagem de uma nebulosa no espaço, dá uma sensação do clima que as músicas do álbum passam. Uma coisa meio etérea, contemplativa.
Eles são muito experimentais, e misturam de tudo: rock, jazz, música de câmara... A ponto de que é meio dificil definir exatamente o que você ouviu.
Com certeza não é o melhor disco da banda. Eu gostei das duas primeiras faixas: a hipnótica "Formentera Lady" e "Sailor's Tale", que lembra um rock progressivo mais sinfonico, contendo um bom duelo de sax e guitarra. O meio do disco é um pouco irregular e a faixa final, "Islands", para muitos é uma das melhores do grupo. Eu talvez precisasse ouvir mais vezes para concordar.
161 - The Polite Force - Egg (1971)

Egg é uma banda da Cena de Canterbury e esse é o seu segundo álbum. O interessante deles é que eles não tem guitarra, usando basicamente teclados, baixo e bateria.
O som deles é uma mistura de virtuosismo com ironia. O destaque é a Long Piece No. 3. O nome já diz tudo, é uma suíte que cobre o lado B inteiro, organizada em quatro movimentos (como se fosse uma sinfonia) e tem tudo o que você pode esperar de uma banda de rock progressivo. Vale a pena conhecer.
E chegamos ao fim de mais uma etapa.
Queria aproveitar esse espaço para falar um pouco das minhas fontes.
Essa é uma série longa de artigos (serão 20) que só é possível porque o mundo moderno nos dá acesso fácil a praticamente qualquer coisa que foi gravada nos últimos 70 anos. Seria inviável ou simplesmente muito caro adquirir esses discos (alguns verdadeiras raridades) há 30 anos atrás. Hoje, quando não está no streaming, alguém colocou no Youtube.
Não estou colocando links para os streamings porque 1) Os streamings que uso não são os mais populares (Deezer e Apple Music) e 2) Alguns links do Youtube são de procedência muito duvidosa e podem cair por questão de copyright a qualquer momento. Quem quiser acha com facilidade.
Mas além da música, acho que é importante citar os sites que consulto para saber o que falar sobre alguns discos. Os dois principais são o Allmusic e o Progarchives.
AllMusic é tipo um IMDB da música. Você encontra basicamente tudo de tudo, de rock a jazz e clássico. Por algum tempo tentei acompanhar os lançamentos por ali, mas é virtualmente impossível, sai muita coisa.
Prog Archives é um site especializado em Rock Progressivo, mas que acaba tendo em seu acervo muita coisa relacionada, como rock clássico e heavy metal (os discos do Iron Maiden aparecem no catálogo, por exemplo).
Nessas três semanas eu já aprendi muita coisa nova e tive alguns insights que nunca teriam me ocorrido sem passar por essa experiência.
Eu não sei se muita gente vai ler isso aqui, mas o trabalho vai ficar armazenado. Quando terminar, vou organizar todas as resenhas numa página separada.
O que você achou? Já conhecia alguns desses álbuns? Conseguiu se interessar em escutar alguns deles?
E as fontes que citei, você já conhecia?
Quero ouvir vocês!