Os 200 melhores álbuns de Rock Progressivo - Parte 3
Ou, pelo menos, essa é a opinião da revista inglesa Uncut, que fez uma edição especial com esse ranking.
Essa é a continuação (a segunda parte está aqui) dessa série e vamos ver mais dez álbuns, dessa vez do 180 ao 171.
Depois de tanta música experimental, começamos a ir para o lado mais mainstream do Rock, tendo inclusive um álbum do Jethro Tull nessa parte.
Listas sempre denotam as preferências de quem a faz. A Uncut é uma revista inglesa com um gosto pelo inusitado. O Rock Progressivo já um estilo de origem inglesa, mas a lista poderia ter mais nomes de outros lugares. Outra coisa que sobressai é a total ausência de álbuns posteriores a 1980. Há muita coisa boa feita desde o fim dos anos 70, mas não os veremos nessa lista.
Siga comigo nessa jornada de aprendizado musical!
180 - Mercator Projected - East of Eden (1969)

Banda inglesa liderada pelo violinista Dave Arbus (famoso pelo solo de violino em "Baba O´Riley", do The Who).
Essa foi mais uma das boas bandas inglesas da época que foram desperdiçadas pela incompetência da gravadora Decca em trabalhar bandas de Rock. Além disso, eles mudavam muito de formação e acabaram restritos à cena inglesa da época mesmo.
É um som bem legal, com instrumentação rica, com violino e sax, alguns toques de psicodelismo e um certo tom oriental. No meio das músicas tem uns ruídos incidentais que são dispensáveis, mas é uma coisa da época. Destaque para a ótima "Waterways".
179 - Mice and Rats in the Loft - Jan Dukes de Grey (1971)

Trio inglês que faz um som com várias influências de folk e de música clássica. Apesar de serem apenas 3 pessoas, eles tocam vários instrumentos e parece muito mais gente.
A primeira música, "Sun Symphony" não me agradou. As partes instrumentais são legais, embora um pouco repetitivas, mas o vocal é estranho, o vocalista exagera no vibrato, fica esquisitíssimo. A segunda faixa, "Call of the Wild" é a melhor do disco, e a terceira e última faixa(a que dá o título ao álbum) voltando com os vocais esquizofrênicos. Parece a trilha sonora de um ritual xamânico medieval. Nesse caso, funciona, você fica em meio transe ouvindo.
Até pelo uso da flauta o som da banda lembra, em alguns momentos, o Jethro Tull, que, não sei se por acaso, são os autores do próximo disco.
178 - War Child - Jethro Tull (1974)

Jethro Tull é um dos maiores nomes do gênero. É um grupo inglês que faz uma mistura de folk com rock e letras muito bem feitas, compostas normalmente pelo seu líder, Ian Anderson, famoso pela seu jeito de tocar flauta.
War Child foi planejado para ser a trilha sonora de um filme que não saiu do papel. As músicas tem letras sob guerra e colonialismo. Os arranjos possuem uma orquestração mais rica do que o habitual da banda. Eu confesso que achei um pouco exagerado, mas o álbum tem grandes momentos.
177 - Argus - Wishbone Ash (1972)

Banda inglesa de hard rock com belos arranjos vocais e um duo de guitarras que inspirou, entre muitos outros, o Iron Maiden. Eles nunca se fixaram em um estilo, tendo músicas que conversam com as diversas tendências da época.
Nesse disco, que foi produzido pelo lendário Martin Birch (o produtor dos discos do Iron na sua época de ouro), é tido como sua obra-prima e um dos melhores discos de 72. As letras de temas medievais e o diálogo entre as guitarras geram ótimos momentos.
Se já não bastasse esses méritos, a capa provavelmente inspirou o George Lucas a criar o visual do Darth Vader. Isso não é uma observação minhas, os próprios músicos da banda brincam com isso!
176 - Sea Shanties - High Tide (1969)

Sea Shanties, "Canções de Marujos" em português, parece um título estranho para esse álbum, pois não fala nada sobre o mar e os navios mas na verdade é uma metáfora ao sentimento de isolamento e alienação que muitas pessoas sentem na vida moderna, como se fossem marujos nesse mar de desesperança e aflições que a vida adulta nos traz. A capa do disco, com referências a morte e os monstros (reais ou imaginários) que assolam o imaginário dos marujos, reforça isso.
O som é bem pesado (para a época), com guitarras bem distorcidas e um dialogo entre as guitarras e um violino elétrico, que traz uma identidade própria a banda. Esse disco foi lançado meses antes do primeiro álbum do Black Sabbath, mas dá para ver aqui algumas influencias em comum como o Cream e o Jimi Hendrix, levadas a um nível mais alto de peso.
Para quem gosta de hard rock e heavy metal é um disco imperdível. Só achei um som um pouco abafado, o que provavelmente é resultado da dificuldade da produção da época em captar um som de guitarras tão distorcidas.
175 - Two Sides of Peter Banks - Peter Banks (1973)

Peter Banks foi o guitarrista original do Yes e, ao migrar para a carreira solo, juntou nesse álbum uma verdadeira seleção do Progressivo. Além do Jan Akkerman, guitarrista do Focus, que colabora em todo disco, temos participações especiais de John Wetton (baixista do King Crimson), Steve Hackett e, last but least, Phil Collins (respectivamente o guitarrista e o baterista do Genesis).
O álbum é totalmente instrumental e pode ser classificado entre o Jazz e o Rock. No Brasil eu veria ele sendo tocado em programas de música instrumental.
O resultado é um tanto desigual, os solos e os ensembles são brilhantes, mas falta ao disco uma certa coesão. Se não é memorável, pelo menos é bastante agradável.
174 - Hergest Ridge - Mike Oldfield (1974)

Esse disco é mais um exemplo da dificuldade em dar sequencia a uma obra-prima. Por melhor que seja, será sempre comparado ao que veio antes e raramente estará a altura.
Mike Oldfield é um multi-instrumentista que produzia a sua música praticamente sozinho. Precursor da New Age (um gênero de música instrumental fortemente baseado em sintetizadores, que teve como grandes nomes Jean Michel Jarre e Vangelis) ele arrebentou as paradas com o lançamento de Tubular Bells em 1973, vendendo mais de 20 milhões de cópias e arrematando o Grammy de Melhor Composição Instrumental no ano seguinte. Ter sido a trilha sonora de "O Exorcista" com certeza ajudou um bocado.
Depois desse estrondoso sucesso, Oldfield se refugiou no interior da Inglaterra, onde compôs esse álbum, que é basicamente uma suíte de duas partes. A música que é bem mais tranquila do que a de Tubular Bells, tem bons momentos, mas talvez seja calma demais. Uma curiosidade é que ele chegou ao número 1 nas paradas britânicas, sendo desbancado semanas depois... pelo próprio Tubular Bells que voltou ao topo!
173 - The House on the Hill - Audience (1971)

Banda inglesa que se autodenominava de "Art-Rock", com uma instrumentação bem inusitada (praticamente não há guitarras e sim um violão elétrico, saxofone, flautas, clarinetas, contrabaixo e bateria) e um som que não é facilmente definível.
Isso é quase a norma nas bandas que vimos nessa seleção. No final dos anos 60 e início dos 70, tanto a vanguarda quanto o pop estavam tentando descobrir o que funcionava para fazer rock e isso resulta nessa variedade toda de instrumentos. Aos poucos, talvez pela praticidade, os teclados foram ocupando esse espaço.
Essa formação faz esse disco ser muito interessante. A base de violão dá um jeitão de folk às músicas, mas é bem mais do que isso. O baixo é bem trabalhado, os sopros são usados de forma inventiva, os arranjos sofisticados servem a melodias fortes e o conjunto que surge disso é realmente interessante e acessível.
Eu consigo imaginar essas músicas tocando na antiga "Antena 1 Light FM" aqui do Rio, embora provavelmente isso nunca tenha acontecido.
172 - Space Shanty - Khan (1972)

Além de ser o destino dos peregrinos de "Os Contos da Cantuária" a obra de Chaucer que praticamente funda o inglês moderno, Canterbury é o foco de una importante cena de Rock Progressivo, a ponto de definir um subgênero próprio, (Canterbury Scene). Bandas famosas desse estilo são o Caravan e o Soft Machine.
Khan é a reunião efêmera de diversos músicos que passaram em outras bandas da região para gravar esse único disco (a banda se desfez pouco depois).
Durou pouco, mas valeu a pena: A música é extremamente melódica, cheia de variações de tempo complexas e aquele timbre de teclado distorcido típico do estilo. Embora o pessoal de Canterbury valorize muito a ligação do rock com o Jazz, esse disco pode ser uma boa ponte para quem curte o Rock Progressivo mais sinfônico.
O tema espacial, além de estar na moda à época, tem uma clara referência Trekkie e o título do álbum faz eco com o Sea Shanties, que vimos anteriormente.
171 - Air Conditioning - Curved Air (1971)

Formado por músicos com formação clássica e por uma cantora experiente, o Curved Air fez enorme sucesso com esse seu disco de estreia devido a um fator inusitado: foi o primeiro disco lançado em massa ao usar a técnica de Picture Disc que era ter uma imagem pintada no vinil.
No caso, a capa do disco era transparente, deixando as pessoas verem a imagem pintada no vinil, foi uma espécie de uma mandala formada por mulheres nuas. A curiosidade chamou muita atenção (o disco chegou a ser o oitavo nas paradas da época), mas acabou decepcionando porque aos poucos a tinta ia desbotando pelo atrito da agulha.
A música em si entrega a origem dos músicos. Além das referências mais óbvias, como a faixa "Vivaldi", "Vivaldi in Canon", eles aplicam várias técnicas de música erudita no Rock. Isso é normal no progressivo, o que muda aqui é a direção. O progressivo normalmente é feito por roqueiros que começam a buscar no erudito novos caminhos, aqui é o oposto.
Infelizmente, o processo de pintura do vinil causava um certo ruído na leitura do disco e isso se aliou a forma de como o disco foi gravado (com a banda tocando tudo ao vivo e não com instrumentos separados, como é o mais comum) fazendo o som parecer um tanto quanto abafado. Mesmo nas remasterizações (onde o efeito da pintura não existe), se percebe esse abafamento e acredito que isso realmente estrague um pouco a experiência.
É uma pena, o disco traz boas músicas e performances, e mesmo com todo buzz criado com o lance da pintura, acabou se tornando uma pérola escondida, com alguma justiça.
E chegamos ao fim de mais uma etapa.
O que notei nesses dez discos foi que a experimentação não está tanto na forma da música, mas na instrumentação e nas técnicas utilizadas. Aqui há uma preocupação com agradar o público, em trazer algo que possa ser consumido em maior escala, ainda que seja uma música complexa.
O que você achou? Já conhecia alguns desses álbuns? Conseguiu se interessar em escutar alguns deles?
O que você acha de tanta concentração nas bandas inglesas? E na faixa pré-1980?
Quero ouvir vocês!