Ulisses - Um livro como nenhum outro

Review do Livro Ulisses, de James Joyce.

Ulisses - Um livro como nenhum outro

Graças ao grupo de discussão que mencionei anteriormente, consegui realizar a façanha de ler Ulisses, de James Joyce, em pouco mais de um mês e meio.

É uma aventura. Mil e duzentas páginas em oito semanas não é pouca coisa, mas não é isso que faz a leitura de Ulisses uma façanha, e sim a densidade do que é escrito. Como estava lendo junto com um grupo internacional, alternei a leitura em português (tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro) e o original em inglês, o que aumentou o trabalho, mas ajudou bastante a entender algumas questões.

Sobre o que é o livro? É uma pergunta difícil. É sobre tudo e sobre quase nada, dependendo da maneira que você quiser entendê-lo.

Reconheço que essa parece uma resposta canalha, mas a verdade é que qualquer resposta melhor do que essa será um pouco redutora, falando apenas de um recorte do livro e não de sua totalidade.

Tecnicamente, estamos acompanhando um dia específico, 16 de junho de 1904, na vida de três pessoas que moram em Dublin: Stephen Dedalus, um jovem escritor de 22 anos que atravessa uma crise criativa; Leopold Bloom, um judeu convertido ao cristianismo de 38 anos; e sua esposa Molly, de 34, uma cantora de ópera.

Bloom trabalha como agente de publicidade e é um homem comum, observador e prático, mais preocupado em fazer as coisas funcionarem do que em se perder em especulações filosóficas. Generoso e profundamente empático, Bloom está sempre disposto a ajudar quem cruza seu caminho.

Molly, sua esposa, é uma mulher extrovertida, de origem espanhola e, em vários sentidos, exuberante.

Embora o casal aparentemente viva bem, o casamento está em crise há dez anos. Tudo começou quando Rudy, o segundo filho dos Bloom (a primeira é Milly, hoje com 15 anos, enviada recentemente para uma cidade vizinha para estudar fotografia), morreu com apenas onze dias de idade.

Como se isso não bastasse, o pai de Bloom, Rudolph, suicidou-se aproximadamente na mesma época. Esses dois acontecimentos o abalaram de tal forma que ele nunca mais conseguiu manter relações sexuais com Molly, a quem ama profundamente. Numa tentativa inconsciente de compensar essa ausência, Bloom passou a dedicar cada vez mais atenção à filha e às tarefas domésticas.

Molly, por sua vez, se ressente profundamente da falta de demonstrações de afeto físico por parte do marido. Embora os dois sejam relativamente liberais para os padrões da época, continuam sendo um casal do início do século XX. Não há DR. O clima entre eles é tenso, mas nenhum dos dois encontra coragem para falar abertamente sobre o problema.

No dia em que a história se passa, essa crise chega a um ponto crítico. Molly está prestes a trair Poldy com Blazes Boylan, um produtor musical bonitão que a corteja sob o pretexto de organizar uma turnê. Boylan irá à casa dos Bloom às quatro da tarde, e Leopold sabe muito bem o que está prestes a acontecer.

No fundo, ele reconhece que também tem sua parcela de responsabilidade pela situação e cultiva seus próprios desvios, ainda que apenas platônicos. Por isso decide passar o dia longe de casa, ruminando a traição iminente enquanto tenta decidir o que fazer.

Já Stephen, que divide com dois colegas uma antiga torre à beira da Baía de Dublin, sente-se profundamente sozinho. Ele vê seus companheiros, Buck Mulligan e Haines, como impostores. Absurdamente culto e capacitado, sofre porque não acredita em nada e, por isso, não encontra propósito para viver. Apenas a arte o interessa, mas sua arte é vazia, porque ele próprio não acredita em nada que possa sustentá-la.

Sua mãe faleceu há cerca de um ano e, sendo ateu, Stephen se recusou a rezar por ela, apesar de esse ter sido seu último pedido. Ressente-se de todas as forças que o prendem, família, religião e nacionalismo, mas ao mesmo tempo não consegue se libertar completamente delas.

É nesse estado de espírito que, logo no início do dia, ele deixa a torre decidido a não voltar.

Temos então dois personagens: um filho sem pai e um pai sem filho, que sabemos acabarão se encontrando ao final daquele longo dia. E, de alguma forma, esse encontro acabará mudando a vida dos três protagonistas.

O livro é organizado segundo uma estrutura que repete, de forma livre e muitas vezes distorcida, eventos da Odisseia. Há uma correspondência entre Stephen e Telêmaco, Bloom e Ulisses, Molly e Penélope, mas a forma como enfrentam seus dilemas é bastante diferente daquela encontrada no poema de Homero.

Essa é apenas uma das muitas camadas do romance. Há também uma forte correspondência com Hamlet, especialmente no caso de Stephen, que chega a apresentar uma longa teoria sobre Shakespeare durante o decorrer do dia.

Embora Bloom seja tecnicamente cristão, continua sendo visto como um forasteiro. O antissemitismo dos irlandeses aparece de diversas formas ao longo da narrativa, culminando numa discussão memorável entre Bloom e um personagem conhecido apenas como "O Cidadão".

Um dos grandes destaques do livro é a maneira como ele é escrito. Nos capítulos iniciais, Joyce utiliza extensivamente o diálogo interior e o fluxo de consciência para nos permitir acompanhar os pensamentos dos personagens.

A partir da metade do romance, porém, a narrativa começa a se transformar constantemente. Vira jornal, vira música, vira debate político, romance barato, peça expressionista e, por fim, uma espécie de catecismo composto por perguntas e respostas sobre a conversa que Bloom e Stephen têm ao final da noite.

Então chegamos ao epílogo, onde, pela primeira vez, temos acesso aos pensamentos de Molly. E que pensamentos são esses.

Molly é um vulcão que fala (na verdade, pensa) sem parar e nos entrega um solilóquio interior de cerca de noventa páginas, com apenas oito pontos finais e praticamente nenhuma pontuação intermediária, enquanto reflete sobre sua vida, os acontecimentos do dia e seus sentimentos em relação ao marido.

E é isso. O final é aparentemente aberto, mas nem tanto. Para mim, é muito claro o que vai acontecer a partir do dia seguinte. Quanto a Bloom e Molly, deixo para vocês descobrirem. Já em relação a Stephen, minha leitura é que esse dia e esse encontro o ajudaram a encontrar uma voz própria, a ponto de transformá-los em literatura no futuro.

Essa interpretação ganha força quando lembramos que o dia retratado no romance, 16 de junho de 1904, foi também o dia em que Joyce iniciou seu relacionamento com Nora Barnacle, a mulher com quem dividiria o resto da vida. Segundo o próprio autor, foi ela quem lhe deu um sentido e uma direção. Nesse sentido, Ulisses pode ser visto também como uma homenagem àquele encontro.

O que eu achei do livro? Sensacional, mas não do mesmo jeito que um best-seller. Não é um livro que te faça devorar as páginas. Muito pelo contrário. Tem horas em que você acha que o autor só pode estar de sacanagem com você (e às vezes está mesmo).

Ulisses é um caleidoscópio de referências com inúmeras camadas que se realimentam umas às outras. Os símbolos passeiam pelo romance e mudam de significado ou aparência, e cabe ao leitor capturar o que conseguir. É um livro para ser relido mais do que lido. O problema é vencer a primeira vez, e isso eu consegui.

Para terminar, qual a moral que eu tiro do livro?

Bem, levando em consideração que o modelo dele é a Odisseia, que para os gregos servia como um modelo de como viver em tempos de paz (enquanto a Ilíada oferecia um modelo para a guerra), entendo que Ulisses tenta nos oferecer um modo de viver na sociedade moderna, em cidades onde milhares de pessoas se esbarram todos os dias, mas quase ninguém se conhece de verdade.

Bloom se destaca aqui. Por isso ele é o Ulisses moderno. É inteligente, evita conflitos desnecessários e usa observação e argúcia para resolver os problemas que encontra pelo caminho. Somadas à sua empatia, essas qualidades fazem dele um bom modelo para viver no mundo atual.

Stephen funciona como um contraponto necessário. Precisamos também de sua energia rebelde, de sua inquietação e de sua recusa em aceitar respostas prontas. Além de sua enorme cultura, lógico.

Talvez Joyce estivesse sugerindo que nenhum deles basta sozinho. Bloom, Stephen e Molly formam uma espécie de trindade humana: empatia, inteligência e vitalidade.

Juntos, esses três maravilhosos personagens, que agora me acompanharão pelo resto da vida, oferecem um modelo possível de como viver neste mundo de lágrimas.