Lendo Ulisses

Eduardo comenta sobre a experiência de ler Ulisses, de James Joyce.

Lendo Ulisses

Quando entrei no CEFET, quase 40 anos atrás, conheci um rapaz bastante intelectualizado. Conversávamos muito sobre livros e música (ele gostava de rock progressivo, como eu) e uma coisa que me marcou foi quando ele falou sobre James Joyce, o autor de Ulisses, que seria o livro mais complexo já escrito.

Obviamente fiquei curioso. Pelo que ele me explicou, o livro era uma espécie de Odisseia moderna, porém com toda a ação concentrada em um único dia, em Dublin, na Irlanda, onde basicamente acompanhamos a vida de três personagens: Stephen, um jovem poeta meio perdido na vida; Leopold Bloom, um judeu de meia idade que trabalha como agente de publicidade; e Molly, sua esposa, uma cantora de ópera que está prestes a trair o marido nesse dia.

Não ousei ler o livro na época. Tentei ler o Retrato do Artista Quando Jovem, que seria uma espécie de prólogo, contando a infância e juventude de Stephen e… não passei da quinta página.

Joyce é radicalmente inovador na forma de narrar. Nesse livro, enquanto o artista ainda é criança, ele escreve como se fosse uma criança. E por aí vai. Rapidamente o texto entra em um mar de referências sobre questões irlandesas e inglesas que eu não conhecia, e acabei largando o livro.

Porém, a questão tinha ficado na minha cabeça. Um dia eu vou ler esse livro.

E agora a oportunidade surgiu. Adam Walker é um professor de Letras de Harvard que largou a academia e vem dando cursos online de literatura e poesia. Eu via alguns vídeos dele no YouTube e, mês passado, ele anunciou que faria uma leitura conjunta de Ulysses na sua comunidade. Resolvi encarar.

Entrei na comunidade, arrumei uma edição brasileira (estou usando a da Bernardina da Silveira Pinheiro, porque me pareceu a melhor para uma primeira leitura, dadas as notas) e também uma versão inglesa (porque o curso é em inglês e eu precisaria usar trechos do original para discutir — além disso, a linguagem é muito importante nesse livro, então é bom ter o original por perto mesmo que se vá ler sozinho). E caí no livro.

E, surpresa: o livro não é tão difícil assim.

Não se engane, as aparências assustam. Aparece uma frase em latim logo no segundo parágrafo. E o texto é um caleidoscópio de referências, muitas delas mais difíceis hoje porque nosso mundo se afastou do que era Dublim (e a Europa) do início do século XX.

Mas, para um adulto de meia idade, relativamente lido, não é uma tarefa impossível. O erro é se preocupar demais com as árvores e esquecer de olhar a floresta. Os detalhes estão ali, são interessantes e geram inúmeras discussões, mas você não pode perder de vista a mensagem principal.

E qual é?

Bem, ainda estou no meio do livro, mas sendo uma obra tão conhecida, e por estar lendo e buscando a literatura que existe sobre ela, me sinto capaz de falar um pouco sobre isso.

Stephen é, claramente, o Joyce enquanto jovem. Irlandês com forte formação católica, muito estudado, profundamente racional, a ponto de ter renegado tudo o que foi preparado para acreditar: a religião, a pátria. Para sobreviver, se apegou à arte, mas não consegue criar nada.

Bloom é o Joyce maduro ou, pelo menos, o que Joyce gostaria de ser. Uma pessoa totalmente preocupada com o aqui e agora. Pacato, compreensivo, afetuoso, cuida da esposa e da filha, que agora trabalha em outra cidade aprendendo a profissão de fotógrafa. De origem judaica, porém sem ser religioso (ele come rins de porco logo no primeiro capítulo), pertence à classe média de Dublim, mas por sua origem acaba não sendo totalmente integrado.

Joyce nos apresenta esses dois personagens de maneira brutal. O livro alterna um narrador em terceira pessoa com imensos trechos de fluxo de consciência, onde lemos os pensamentos dos personagens sem nenhum filtro ou organização. Isso faz com que saibamos de todos os seus medos e desejos, às vezes não muito publicáveis.

Pois bem, o livro claramente nos leva a entender que esses dois personagens vão se encontrar, e que esse encontro os ajudará a entender melhor e reorganizar suas vidas. Stephen precisa de uma figura paterna que nem seu pai biológico, nem a religião, nem a pátria ocuparam; e Bloom precisa de um filho que preencha o buraco que a morte do bebê de 11 dias deixou em sua psique.

Por enquanto é isso. Vou escrever de novo quando terminar o livro.

A obra é ótima e com certeza não se esgota numa primeira leitura. Como toda grande arte, você pode revisitá-la eternamente e sempre encontrará algo novo. Ler Ulysses é como entrar na cabeça de outra pessoa e descobrir que ela é tão confusa, engraçada, frágil e humana quanto nós. De perto, todo mundo é meio esquisito.

Se você gosta de literatura, recomendo que leia Ulisses. Se o fizer e quiser discutir qualquer coisa sobre o livro, me escreva. Infelizmente não tenho mais contato com o colega do CEFET e não tenho com quem falar sobre o que estou lendo.