Manhã no Aterro

Resultado de um exercício da oficina de escrita que estou participando, é uma crônica sobre uma caminhada no aterro.

Manhã no Aterro

Manhã no Aterro

Acordo num susto. O telefone com seu toque estridente, desesperado. Está na hora. Levante-se seu preguiçoso! 

Procuro a roupa. São sete da manhã, acabou de amanhecer, está frio. Ou pelo menos, frio para nós, cariocas. 18 graus siberianos. Coloco uma bermuda de tactel, uma camisa e uma blusa de moletom. Tênis e meia. Mais do que isso também é exagero. Estamos no Rio.  

Saio, pego o elevador, ninguém. Que bom, ainda não acordei direito. Passo na portaria, cumprimentei o porteiro, ele fala sobre o jogo do Brasil. 

- Será que dá para a gente?

- Quem sabe?

Tomo a rua, em direção ao Aterro. As ruas vazias de carro mas cheias de mendigos, que dormem cobertos, na proteção das marquises. Algumas pessoas nos pontos, encasacadas, pulando nos pés, aguardando a lotação que demora. 

Atravesso a Praia e subo a passarela para o Parque, aquela maravilha de um milhão e trezentos metros quadrados projetada por Burle Marx onde antes havia o mar. Hoje, é o maior parque urbano do mundo. Um lugar tão bacana e democrático que nos mantém a esperança de que, quem sabe, um dia o Brasil dê certo. 

Atravesso a ciclovia. Uma mocinha passeia com uma golden retriever, que quase a carrega. Ciclistas passam velozes, como se estivessem no Tour de France cumprindo uma meta volante. Na grama, massagistas montam camas para oferecer sessões de shiatsu. Estou bem precisando de uma dessas. 

Chego ao calçadão. O Céu Azul, pálido, sem uma nuvem no céu. A temperatura já está amena, uns 20, 21 talvez. Como eu gosto do Rio entre maio e setembro!

Camelôs preparam suas barracas, recebem côcos, picam o gelo dos isopores. Na areia, crianças correm atrás de uma bola aos olhos de um instrutor, que mantém uma escolinha de futebol de areia. Os pais observam, sentados na beira do calçadão. 

Jovens, moças e rapazes, passam correndo, com roupas de ginástica de marca. Senhoras passam andando. Eu vou entre uns e outros, apertando o meu passo. O joelho não permite correr, mas o reloginho cobra o ritmo. Vamos lá, um por cento melhor do que ontem. 

Ao fundo, um avião vem planando, para pousar no Santos Dumont. Mal ouço seu barulho. No mar, uma barca vai em direção a Niterói. Os botos a acompanham. O mar está azul quase turquesa e limpo, como nunca foi na minha infância. 

Chego ao fim do calçadão e dou a volta, no alto do morro da Glória, o Outeiro, com suas paredes brancas e sua torre. Abaixo o antigo hotel, que está virando um condomínio moderno. Quem dera poder morar ali.

A temperatura aumenta, tiro o moletom. Já há mais gente no calçadão. Alguns rapazes ameaçam uma altinha enquanto esperam os colegas. A bola foge e uma criança se solta do pai para buscá-la. A esquerda, na areia, a turma do Frescobol e do Beach Tennis praticam o seu desporto, estes se refrescando com o gelado líquido de seus copos Stanley.

Olho para frente e vejo, encrustada no Pão de Açúcar está a Íbis, esticando seu pescoço como se quisesse cantar alguma coisa. Lembrança dos Fenícios, que talvez tenham estado aqui ou mera ilusão de ótica? Só Deus sabe...

Fim da caminhada, atravesso o parque de volta, passo por uma quadra. Meninas estão jogando bola. Elas jogam bem, estão absortas na partida e não reparam que ganharam um espectador. Fico ali observando, aguardando um gol que não sai. 

O relógio toca e me lembra que daqui a pouco tenho reunião. 

É hora de voltar. A vida chama.