Diário da Copa - 25/06/2026
O que vale a Copa do Mundo? Ou mesmo uma simples Vitória? Para o Equador, valeu muito!
Não se fazem mais filmes como antigamente.

No final de "Relíquia Macabra" (também conhecido como "O Falcão Maltês"), um policial pergunta ao Detetive Samuel Spade (interpretado por Humphrey Bogart) do que era feita a tal estatueta, por qual tantos lutaram e morreram no filme.
— Ela é da matéria da qual são feitos os sonhos.
O que vale a Copa do Mundo?
Garrincha disse que era um torneio sem graça, que não tinha nem segundo turno, quase da mesma forma que Tom Bombadil pega o "Um Anel", brinca com ele e o devolve tranquilamente para Frodo. Com certeza, houve peladas mais duras em Pau Grande.
Para muitos, a Copa do Mundo vale o peso da sua taça em ouro, ou os milhões em publicidade que ela gera.Para alguns jogadores, é um sonho de criança que pouquíssimos conseguem sequer chegar lá para jogar. Fazer um gol é para menos ainda e, vencer... a glória eterna.Para outros (muito poucos, acredito), é uma competição inconveniente que os impede de tirar férias.
A Copa do Mundo vale muito porque o mundo inteiro assiste e se importa com ela. O dinheiro que ela gera, o ouro da taça, tudo só existe porque as pessoas gostam disto. Mesmo aquelas que não ligam para futebol no dia a dia, de quatro em quatro anos gostam de acompanhar o drama e torcer para os seus.
O jogador que encara a Copa do Mundo como um mero trabalho nem deveria ir lá. Por mais profissional que ele seja, vai-se a uma Copa do Mundo com um pouco de espírito amador. Você está realizando a fantasia de quando jogava na pelada da rua.Não é problema perder as férias, porque nenhuma folga vai lhe dar algo tão inesquecível quanto deve ser participar de uma Copa do Mundo. A chance de ser um herói moderno, de ser cantado em verso e prosa pelos seus pelo resto da vida. Ganhando ou perdendo.
E existem diversos prêmios. Para nós Brasileiros, que já ganhamos cinco Copas, pelo menos para os torcedores, é o título ou nada. Países com menos pedigree não podem se dar ao luxo de ser tão cínicos. É o caso do Equador!
Equador 2 x 1 Alemanha
Poucos sofreram como o Equador nesta Copa.
Na primeira partida, depois de mandar duas bolas na trave, perderam para Costa do Marfim com um gol nos descontos.
Na segunda partida, contra um Curaçao que havia tomado de 7 a 1 da Alemanha na primeira rodada, perderam chances de gol inacreditáveis e terminaram empatando em 0 a 0.
Restava vencer a Alemanha ou voltar para casa. A ALEMANHA.
Foram dias infernais para os equatorianos. Após o empate na segunda partida, ainda no estádio, torcedores revoltados xingaram a esposa e as filhas do técnico Sebastián Beccacece. Como se ele tivesse culpa de Enner Valencia perder os gols que perdeu (torcedores do Internacional e do Fluminense não ficaram surpresos). Houve até uma briga na Times Square entre torcedores de times rivais.
Mal o jogo começa e, com dois minutos, a Alemanha faz 1 a 0. Parecia o fim da linha.
Só que não. Aos nove, Angulo, de fora da área, consegue chutar entre as pernas de um defensor, e Neuer não chega no cantinho. Jogo empatado.
Começa o segundo tempo. Pênalti para a Alemanha. Agora é o fim.Não, o VAR chama e encontra uma falta na origem da jogada. Continua 1 a 1.
O tempo passa, o Equador não consegue grandes chances e a Alemanha parece mais preocupada em não se desgastar muito, já que tinha o primeiro lugar garantido.
Até que, aos 77, há um escanteio pela direita, alguém raspa na bola no primeiro pau e, no meio do gol, Gonzalo Plata, que joga no Flamengo, desvia de Neuer e bota o Equador na frente.
Daí para a frente foi uma loucura. "Sí, se puede!". A Alemanha, sem nada a perder, foi tentar o empate. Não que tenha se esforçado muito para isso, mas foi. E tome escanteio. Houve uns sustos. Sete minutos de descontos; o tempo não passava.Até que, ao final, houve um contra-ataque, o Equador prendeu a bola, e a juíza acabou o jogo assim que os sete minutos se completaram, para uma festa poucas vezes vista em um estádio.
O treinador do Equador pulou para a arquibancada para comemorar com a esposa e as filhas. O áudio do estádio soltou uma música equatoriana famosa que foi cantada por toda a torcida.

Parecia título e, de certa forma, foi. Vitória de virada sobre a tetracampeã do mundo para garantir uma classificação inédita.Por alguns minutos, o Equador foi a nação mais feliz da Terra. E todo o mundo testemunhou isso.
Garrincha talvez estivesse certo ao dizer que era um torneio sem graça. Para ele, todas as partidas eram peladas, todos os marcadores eram Joãos. Forças da natureza não precisam de sonhos.
Mas para os equatorianos que brigaram na Times Square, escalaram as arquibancadas de Nova Jersey, ou simplesmente se ajoelharam para agradecer aos céus, essa vitória, de virada, justificou tudo: viagem, ingressos caros e o medo do ICE.
"Sí, se Puede". Nem sempre é verdade, mas hoje foi.
Amanhã, os ingressos continuarão caros, os empresários continuarão ganhando milhões. Mas hoje não.Hoje, um pequeno país da América do Sul dorme o sono de quem acredita que os sonhos de criança podem se fantasiar de realidade.